CIDADÃO
• O dono da cozinha.
Difundido internacionalmente, usado há milênios o sal
tempera alimentos e ressalta sabores
Por J. A Dias Lopes
Nenhum outro ingrediente encontra tantas aplicações
na cozinha quanto o sal comum, ou seja, o cloreto de sódio.
Está presente em todas as culinárias. Poucas receitas
o dispensam. É empregado até em pães e doces.
Cristalino e inodoro, ressalta os sabores e tempera os alimentos.
Ao mesmo tempo ajuda a conservá-los. Apesar de seu consumo
excessivo ser associado ao aumento da pressão sangüínea,
é importante consumi-lo. Em quantidades sensatas, o sal fornece
ao organismo humano substâncias essenciais a seu equilíbrio
fluido, à atividade dos músculos e dos nervos. Além
disso, sem ele a comida fica completamente sem graça. Insosso
é, na prática, o antônimo de sal. Em casos graves
de hipertensão arterial e de algumas doenças endocrinológicas
quando os médicos precisam vetá-lo categoricamente,
resta a alternativa de um produto dietético, um composto
que visa a substituir o sabor do cloreto de sódio. A sensação
gustativa, porém, não se compara à proporcionada
pelo sal.
Nosso fascínio por ele é milenar. Os gregos o incluíam
nas oferendas religiosas. Seu genial poeta Homero, provável
autor da Ilíada e da Odisséia, atribuiu-lhe caráter
divino. Os romanos colocavam uma pitada de sal na boca do recém-nascido
para lhe despertar a sabedoria. Davam-lhe tanta importância
que o converteram em moeda. Com ela pagavam seus soldados. O vocábulo
salário vem do latim salarium, que significa sal-moeda. O
poeta Horácio, consagrado na Roma antiga, considerava-o “imagem
do espírito, graça e vivacidade mental”. Os
antigos hebreus julgavam que seu uso impede a contaminação
dos alimentos pelo demônio, vale dizer, não os deixa
estragar e causar intoxicação alimentar. Ao mesmo
tempo classificavam de “terra salgada” as áreas
mais desoladas do deserto. Também espalhavam sal sobre as
ruínas da cidade que destruíam, para que não
ressurgissem. A tradição, por sinal, foi revivida
pelos portugueses após sufocarem a Inconfidência Mineira,
em 1789. Eles salgaram todos os bens de Tiradentes.
Jesus Cristo utilizou o sal para ilustrar o papel que seus discípulos
têm no mundo. No Sermão da Montanha disse a eles: “Vocês
são o sal da terra” (Mateus 5:13). Significava que
seus discípulos, mesmo em número inferiorizado, mudariam
a Terra. Fariam com que o planeta ficasse “ao gosto de Deus”.
Jesus Cristo acrescentou: “O Sal é certamente bom,
mas, se perder o sabor, não vai prestar para nada, e será
jogado fora”. (Lucas 14:34,35). No interior do Brasil, toma-se
o ensinamento ao pé da letra. O sal considerado “velho”
é desprezado. No Nordeste chamam-no de “impuro”.
Também não se passa o saleiro diretamente à
mão de outra pessoa, quando estamos à mesa. O certo
é colocá-lo sobre a toalha. A outra pessoa deve pegá-lo,
sem qualquer intercessão. Caso contrário, um dos presentes
morrerá em seguida. Mestre Luís da Câmara Cascudo,
no Dicionário do Folclore Brasileiro, (Global Editora, São
Paulo, 2001), registra uma importante crença popular. Derramar
sal na mesa é mau agouro. Leonardo da Vinci, no monumental
afresco Última Ceia, pintado na parede do convento renascentista
de Santa Maria delle Grazie, em Milão, na Itália,
colocou um saleiro entornado diante de Judas Iscariotes. Dias depois,
ele se enforcaria. Segundo o Evangelho de Mateus, matou-se corroído
pelo arrependimento de haver traído Jesus, em troca de 30
moedas de prata.
O sal pode ser extraído da água, especialmente do
mar, ou da terra. A Enciclopédia Mirador Internacional (Encyclopaedia
Britannica do Brasil Publicações, São Paulo,
1982) classifica-o em dois grandes grupos, de acordo com o teor
de pureza: 1) Sal bruto, subdividido em marinho verde ou curado;
o de minas, proveniente de lagos salgados ou mares interiores; o
de jazidas de sal-gema ou sal de rocha, encontrado no subsolo; o
de depósitos mistos; 2) O beneficiado, subdividido em alimentício,
de mesa, de cozinha ou grosso; e de conserva. Alguns países
se distinguem pelos sais altamente qualificados. A França
possui o da Bretanha, de cor cinzenta e sabor delicado, apreciadíssimo
pelos grandes chefs. A Inglaterra tem o Maldon, no Essex, todos
em flocos, com sabor pronunciado. A Itália se ufana do Marsala,
úmido e compacto.
Falamos de uma riqueza praticamente inesgotável, seja na
natureza, seja nas variedades. Sua produção mundial
ultrapassa 200 milhões de toneladas por ano. Os Estados Unidos
lideram o ranking, com 41 milhões de toneladas, seguido pela
China, com 31 milhões. O Brasil ocupa o décimo lugar,
produzindo 5,2 milhões de toneladas. Nosso sal marinho é
quase todo originário do Rio Grande do Norte (91%). Enquanto
isso, as jazidas de sal-gema estão na Bahia e em Alagoas.
O paladar nacional o aprecia fervorosamente. Jamais dispensa o sal.
Sua extinção seria catastrófica para a culinária
nacional. Simplesmente desapareceria a carne-seca, ingrediente fundamental
de um elenco de pratos, a começar por feijoada. Falando francamente,
qual o brasileiro que sobreviveria sem ela?
Revista Gula, Maio 2004
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