SAÚDE
Brasília, 14 de janeiro de 2005 - 10h
Desnutrição na infância pode provocar obesidade
Estudos mostram que a doença aumenta cada vez mais
entre as populações de menor renda. Distúrbios
orgânicos e má alimentação são
alguns dos fatores responsáveis
O desnutrido de hoje poderá ser o obeso de amanhã.
É o que dizem especialistas. Eles garantem que obesidade
não é só doença de rico. Famílias
de baixo poder aquisitivo estão expostas ao problema, que
também é de natureza social e pode ter relação
com a desnutrição na infância. De acordo com
a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), realizada pelo
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)
no período de julho de 2002 a junho de 2003, com o apoio
do Ministério da Saúde, em adultos acima dos 20
anos, 38,6 milhões de brasileiros estão acima do
peso. Desses, 10 milhões são obesos.
Para a coordenadora da Política Nacional de Alimentação
e Nutrição do Ministério da Saúde,
Maria de Fátima Carvalho, o estudo é muito importante
e não pode ser interpretado equivocadamente. A pesquisa
publicou dados sobre a população adulta. Esses dados
trazem tendências de médias nacionais que podem encobrir
diferenças importantes de gênero, raça e estado
fisiológico. Essas tendências precisam ser investigadas‰,
afirma Maria de Fátima.
A coordenadora destaca estatísticas do estudo que mostram
que as mulheres mais pobres, em idade fértil, têm
maior prevalência de desnutrição e, portanto,
podem gerar crianças de baixo peso, com maior risco de
morrer no primeiro ano de vida. Segundo ela, esse quadro indica
que a desnutrição continua a ser problema no Brasil.
Junto a isso, informações de pesquisas anteriores
ainda revelam prevalência alta de desnutrição
crônica em crianças menores de cinco anos, resultado
de exposições freqüentes à fome e às
doenças infantis desde o nascimento.
A diminuição da desnutrição na idade
adulta e o aumento do número de obesos é uma tendência
no Brasil desde meados da década de 80 e caracteriza o
que os especialistas chamam de transição nutricional.
„Isso é conseqüência do aumento da expectativa
de vida, associado às mudanças nos padrões
tecnológicos, culturais e sociais e no estilo de vida,
mas não significa que o País resolveu o problema
da fome, ressalta Maria de Fátima. Em um domicílio
onde moram obesos podem existir crianças desnutridas. É
necessário acabar com a concepção de que
o problema da obesidade é da classe rica. Hoje ela é
um problema de todas as classes sociais, reforça.
Na opinião de Maria de Fátima, a coexistência
entre obesidade e insegurança alimentar e nutricional em
uma mesma família desperta perguntas sobre a associação
entre fome e excesso de peso. Como explicar que indivíduos
que não possuem dinheiro necessário para a alimentação
podem apresentar excesso de peso?, questiona a coordenadora. Maria
de Fátima lembra que em outros países estudos demonstraram
essa relação e apontaram que entre as mulheres altas
taxas de obesidade associam-se à desnutrição,
à pobreza e ao baixo nível de escolaridade.
„No Brasil ainda não temos estudos que expliquem
com clareza esse paradoxo. Precisamos desses estudos para compreender
essa situação e assegurar intervenções
governamentais que incluam a prevenção e o declínio
da obesidade.
A opinião de Maria de Fátima é compartilhada
pelo coordenador do Comitê Permanente de Nutrição
das Organizações das Nações Unidas
(ONU) no Brasil, Flavio Valente. Não podemos tratar a obesidade
como um problema individual e sim como uma questão de preocupação
pública, afirma.
Valente também encara a pesquisa do IBGE como um alerta
às conseqüências da fome. A pesquisa não
trouxe novidades positivas como muitos alardearam. Hoje, cerca
de 40% das mulheres em idade fértil sofrem de anemia explica.
Flávio Valente lembra que o combate à desnutrição
infantil começa desde que a criança está
na barriga da mãe. Por isso, as mulheres necessitam de
atenção especial. Estudos científicos demonstram
que a criança que sofre de desnutrição, desde
o ventre até os dois anos, têm o seu metabolismo
afetado. Essa disfunção faz com que no futuro essa
criança tenha tendência a desenvolver a obesidade.
Obesidade: hábitos e custos
Além de distúrbios orgânicos, outros fatores
apontados pela coordenadora da Política Nacional de Alimentação
e Nutrição do Ministério da Saúde
podem explicar as tendências, como as mudanças no
padrão alimentar e de no estilo de vida. Para famílias
de baixo poder aquisitivo, o custo de compra de alimentos de baixa
qualidade nutricional e elevada densidade energética ˆ
encontrados a preços mais acessíveis em supermercados,
lanchonetes e bares ˆ se torna a opção possível.
Isso dificulta a aquisição de produtos mais saudáveis,
como verduras, frutas, legumes e carnes magras, que têm
custo relativamente mais alto.
Com a falta de tempo, dinheiro e informação adequada,
as pessoas trocam pratos saudáveis por refrigerantes ricos
em açúcar, alimentos industrializados, sanduíches
e salgados. Hoje o consumo de açúcar do brasileiro
é muito maior do que deveria. Assim também é
o consumo de outros alimentos com alto teor de gorduras‰,
alerta Maria de Fátima. Nesse caso, segundo a coordenadora
da Política Nacional de Alimentação e Nutrição
do Ministério, ricos e pobres são afetados.
Vale sempre lembrar que ser obeso ou acima do peso significa a
exposição a uma série de problemas de saúde.
Pessoas obesas sobrecarregam a coluna e os membros inferiores.
A longo prazo, elas tendem a apresentar degenerações
(artroses) de articulações da coluna, quadril, joelhos
e tornozelos. Os obesos também encontram-se mais vulneráveis
a uma série de doenças ou distúrbios, como
hipertensão, alguns tipos de câncer, diabetes e doenças
cardiovasculares.
Verduras, legumes e frutas diminuem riscos
De acordo com Flávio Valente, da ONU, o fortalecimento
de uma política que minimize o problema da obesidade passa
por um trabalho de combate e prevenção à
desnutrição infantil, pela educação
alimentar, com o objetivo de trazer de volta ao cardápio
dos brasileiros gêneros alimentícios mais saudáveis,
como o feijão e o arroz, e pelo estímulo à
prática de atividades físicas.
Para o coordenador do Comitê Permanente de Nutrição
da ONU, programas de transferência de renda como o Bolsa
Família, do Governo Federal, o fortalecimento da agricultura
familiar e a regulamentação da distribuição
de merendas são estratégias fundamentais para que
se estimule uma mudança de hábitos e se combata
a desnutrição. Também precisamos de mais
investimento no acompanhamento da gravidez das mulheres de camadas
mais pobres da sociedade‰, explica.
Segundo a coordenadora da Política Nacional de Alimentação
e Nutrição do Ministério da Saúde,
Maria de Fátima Carvalho, desde 1999 o governo vem dando
enfoque maior à questão da alimentação
e nutrição, e, nos últimos dois anos, tem
discutido e promovido uma série de ações
no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS)
e entre os diversos setores do Poder Executivo.
Mais recentemente, esse trabalho vem buscando adequar diretrizes
definidas junto à Organização Mundial de
Saúde (OMS) e obedece a três eixos estratégicos
de atuação. O primeiro é o incentivo ao consumo
de verduras, legumes e frutas, como elemento da alimentação
saudável, pois esses grupos de alimentos diminuem os riscos
de se adquirir doenças crônicas não transmissíveis,
entre elas a obesidade, se consumidos de forma regular e em quantidades
adequadas. O segundo é utilizar a escola como espaço
de promoção da alimentação saudável.
O terceiro são ações regulatórias
para a publicidade de alimentos infantis e para a comercialização
de alimentos nas escolas.
Nesse sentido, o Ministério da Saúde já obteve
sucesso com a Resolução da Anvisa sobre Rotulagem
Nutricional Obrigatória. A resolução exige
da indústria de alimentos que todas as informações
nutricionais sejam impressas nas embalagens dos produtos colocados
à venda, o que facilita a seleção de alimentos
mais saudáveis.
O Ministério também investe na obtenção
de mais dados que possam otimizar os trabalhos. Está em
curso a Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde de mulheres
e crianças menores de 5 anos, que disponibilizará
informações sobre o estado nutricional destes grupos
populacionais. A pesquisa será fundamental para a prevenção
e controle da desnutrição, da obesidade e da anemia
por carência de ferro e de hipovitamonose A entre mulheres
e crianças com menos de 5 anos.
Nos últimos dois anos, o Ministério da Saúde
disponibiliza uma série de publicações para
os profissionais de saúde sobre abordagem da alimentação
saudável em todas as fases da vida. Entre elas destacam-se
o Guia Alimentar para Crianças Menores de 2 anos e o Guia
Alimentar para População Brasileira Maior de 2 anos,
que está em fase de consolidação. Os dois
guias são instrumentos fundamentais para a promoção
da alimentação saudável.
As Informações são da Agência Saúde
Assessoria de Imprensa da Anvisa
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