SAÚDE
Consumidor mundial enfatiza vida sã
Pesquisa mostra que surge no planeta nova versão do "flower
power", só que agora consumista. A sociedade moderna está
cada vez mais preocupada com a qualidade de vida e procura valores
como o equilíbrio entre corpo e mente e a harmonia nos relacionamentos,
ao mesmo tempo em que as pessoas buscam uma identidade pessoal, redescobrem
os valores tradicionais e procuram um estilo de vida mais natural.
Estas são algumas das conclusões da pesquisa global
"Future Forces", desenvolvida pela FutureBrand, empresa
de consultoria e construção de marcas, que identificou
as 12 tendências de comportamento que estão ganhando
importância junto aos consumidores.
"Nosso objetivo é mostrar as tendências de consumo
por meio de análises de comportamentos, percepções,
atitudes, acompanhamento de lançamentos, acontecimentos e fenômenos
sociais para que as empresas posam desenvolver ofertas inovadoras
de seus produtos", explica Alexandre Singai, diretor de design
da FutereBrand Brasil. "Não estamos criando padrões
de comportamento, mas mostrando como a sociedade está se desenvolvendo",
afirma. "Na verdade o que criamos são padrões de
oportunidades de negócios para as empresas", explica.
E, ao que parece, o que, no mundo todo, as pessoas estão dizendo
é que incorporaram novamente os princípios do movimento
que ficou como "Flower Power" nos anos 60, na época
uma resposta à guerra fria e, agora, certamente, uma resposta
às guerras e ao terrorismo. A diferença é que
a sociedade, hoje, é avidamente consumidora e o que ela espera
é que empresas ofertem produtos que atendam aos seus novos
padrões. O que, sem dúvida, gera boas oportunidades
de negócios.
A FutureBrand é uma das líderes mundiais em consultoria
e construção de marca e faz parte do grupo Interpublic
(IPG). Fundada em 1999, a empresa está presente em mais de
20 países. No Brasil, iniciou suas operações
em 2002.
Para pesquisar as novas tendências de consumo, a FutureBrand
possui, em diversos países, incluindo o Brasil, núcleos
de captação de informações, chamados "trendspotters".
Este núcleos alimentam um banco de dados mundial, constantemente
atualizado com informações dos vários escritórios
da rede global.
Explica Singai que são armazenados neste banco de dados desde
estudos de atitudes e comportamentos até uma enorme coleção
de referências de produtos e embalagens. "Com base nesse
mapa-múndi, conseguimos identificar perfis futuros de consumo
e, assim, direcionar o desenvolvimento de ofertas de nossos clientes",
diz. O serviço tem sido utilizado, segundo Singai, por marcas
líderes como Starbucks, Unilever e Coca-Cola.
Para municiar seu banco de dados, a FutureBrand listou o que ela considera
os principais países na criação das tendências
mundiais. "Estes países apresentam características
em comum como a existência de uma classe média forte,
uma população jovem e uma população que
investe cada vez mais em lazer, que aprecia marcas e é receptiva
a conceitos de propaganda, ponto-de-venda, promoção
e marketing", diz.
Também são países que apresentam uma dinâmica
social influenciadora de mudanças, por exemplo, um alto índice
de desemprego, novos imigrantes, um eleitorado ativo com relação
a assuntos políticos, um aumento da taxa de natividade. "Estes
países são considerados por nós como países
"de ponta", por serem mais experimentais, mais abertos às
novas idéias, incentivadores de pensamentos independentes,
criadores de novas iniciativas em negócios e interação
social".
Assim, na Europa são considerados países chaves a Inglaterra,
Holanda, Hungria, República Tcheca, Estônia, Finlândia,
Espanha e Alemanha; no Oriente Médio, a Turquia, Dobai e Qatar
e na Ásia, Índia, Coréia do Sul, Japão
e Singapura. Entram na lista também a África do Sul,
a Austrália, os Estados Unidos e o Canadá. Na América
Latina são considerados países chaves o Brasil, Argentina
e México.
"Existem sempre tendências que se destacam dependendo do
país", diz Singai. Segundo ele, no Brasil as quatro forças
de maior influência são Holistic Health, Enchantment,
Personal Forcefields e Attitude over Age. "O tema Holistic Health
é particularmente interessante para o Brasil, pois no passado,
a saúde teve sua ênfase relacionada ao físico.
No entanto, nota-se que cada vez mais há uma maior preocupação
em outros aspectos como saúde mental e espiritual", afirma
Singai.
Para ele, o País também é "top" numa
nova tendência que começa a surgir e ainda não
listada, o exotismo. "Nós sempre utilizamos o Brasil para
nos auxiliar da definição das forças e temas
de influência. O escritório do Brasil sempre foi um dos
mais importantes "trendspotters" da nossa rede. No entanto,
o Brasil não estava tão aberto para consumir inovação
como está agora, o que acaba facilitando a possibilidade de
desenvolvermos projetos e propostas mais pró-ativas",
afirma Singai
Para o diretor da FutureBrand, neste momento, a companhia considera
o Brasil particularmente interessante porque algumas tendências
brasileiras poderão se refletir no mundo num futuro imediato.
"Isto acontece com a própria tendência "Brasil".
As cores da bandeira, trajes de banho, comida, filmes e música
estão em alta na Europa, assim como a música, caipirinha
e futebol", observa.
"Um bom exemplo de aproveitamento inteligente desta tendência
é o das Havaianas", exemplifica. "Aliás, é
hora de empresários brasileiros aproveitarem o momento para
lançarem novos produtos, antes que outros o façam".
Ele cita como exemplo a rede de grelhados Outback, baseada inteiramente
na cultura australiana e que faz sucesso em todo o mundo, mas foi
lançada por uma empresa americana.
Singai diz que outras tendências emergentes que vieram do Brasil
são a busca por uma vida mais natural e saudável e a
busca pela beleza interior e bem estar (Holistic Health), além
do cuidado com o corpo, a beleza exterior, que já é
parte da cultura brasileira. Segundo ele, isso ocasionou uma explosão
de novos produtos, ingredientes, roupas, entretenimentos, comidas,
viagens baseados nos recursos naturais do Brasil.
Um dos clientes da FutureBrand no Brasil é o laboratório
Genomic, que trabalha há 15 anos com biologia molecular e que,
entre outras coisas, trouxe para o País os testes de a investigação
de paternidade pelo DNA. "No Brasil, as plataformas de wellness
e individualização já começam a se converter
em boas oportunidades de negócios.
A biologia molecular, por exemplo, é uma ciência que
aborda ambas", explica Singai. "Daqui a 10 anos, mais de
50% dos exames serão de biologia molecular, seja analisando
o DNA do homem ou do vírus", explica Manoel Benevides,
diretor comercial do laboratório Genomic. Sua empresa já
oferece diagnóstico preventivo através de análise
genética desde 1994 no Brasil, e, segundo ele, a demanda aumentou
consideravelmente nos últimos 18 meses.
Para Benevides pesquisas como a da FutureBrand "auxiliam o processo
de divulgação dos processos do laboratório, que
ainda são novos, mostrando as tendências de consumo".
Para ele, este "é um processo de maturação
natural, pois as pessoas, incluindo a classe médica, ainda
não têm tanto conhecimento sobre a medicina genética,
mas é um caminho sem volta".
Ele conta que, por exemplo, um exame preventivo de câncer de
mama pode apontar que uma determinada pessoa tem 70% de chances de
desenvolver a doença até os 70 anos. Com essa informação,
o paciente irá ficar atento a essa predisposição
e tem a oportunidade de identificar qualquer sintoma muito cedo, o
que aumenta consideravelmente as chances de sucesso de qualquer tratamento.
"A tendência do "holistic health" pode tomar
proporções significativas e afetar muito mais agressivamente
o mercado nos próximos ano", afirma Singai, "Imagine
que de posse de seu código genético, as indústrias
de beleza desenvolvam produtos completamente sob medida", diz.
Para Singai, do ponto de vista técnico, pode-se dizer que isso
já é possível. O que faltaria para se tornar
realidade é a integração entre laboratórios
especializados e a própria indústria, além da
escala de produção que viabilizaria o negócio.
Gazeta Mercantil, 4 de Outubro de 2004
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